terça-feira, 13 de outubro de 2015

Daniel Sampaio - Lições do abismo

Daniel Sampaio é um psicoterapeuta mais do que habituado aos dramas da alma humana e neste livro ele tem a capacidade de nos fazer entrar nesses dramas, de nos mostrar mais do que um lado da mesma história e de nos fazer ver as coisas de vários pontos de vista.
O livro tem alguns termos técnicos que exigem alguma concentração na leitura mas é sem dúvida um grande livro.

As relações entre pais e filhos podem ser complicadas - umas vezes mais outras menos - mas todos os filhos em algum momento da sua vida vão sentir que os pais não os compreendem e que são eles contra o mundo, neste livro Daniel Sampaio, conta-nos a história de dois jovens que acreditam que os pais não entendem os seus problemas, as suas emoções, os seus sentimentos e que fogem de casa achando que isso resolverá tudo.
Daniel Sampaio explora essas emoções e vai-nos dando conta, não só do que os jovens "incompreendidos" sentem, mas também o que sentem as mães destes dois jovens mostrando-nos um lado que muitas vezes nos esquecemos que existe, o dos pais.
Como já disse, é sem dúvida um grande livro.



"Estou morto de mais para poder morrer, acreditei ter força suficiente para não me asfixiar, apenas pude suspirar quando quis soltar um grito."

"O tempo passa depressa, o dia esvai-se dentro de mim, os primeiros traços de escuridão de há uns meses ocupam cada vez mais espaço. Na mais profunda solidão espero ser livre, desesperado e abandonado choro, não tenho forças para lutar por muito mais tempo."

"Tenho de tornar claro que não desejo ser preocupação para ninguém, não quero que sofram por minha causa, gostaria apenas de um pouco de calma neste corpo tão cansado."

"Agradeço aos meus pais terem sabido tomar conta do meu corpo. A culpa de o detestar não é da sua responsabilidade. Tudo surgiu de repente."

"Apesar da minha raiva continuo a ser ninguém. Caminho por entre sonhos e procuro a serenidade, busco a ilusão de que este momento vai passar e vou surgir de novo, no espelho, sem vergonha de mim."

"Como uma criança nascida na chuva, condeno-me a ficar para sempre gelado por dentro."

"Oiço-me mas não me escuto."

"Quem sabe a minha queda não me deu forças para continuar, quem sabe se estive no paraíso da solidão ou no limbo que precede a felicidade."

"A minha alma leva-me para demasiado longe."


"Tenho pena que me oiçam gritar e pensem que são suspiros."

"O meu olhar ainda pergunta o porquê do teu sorriso gélido."

"Nem sempre desisti. Durante algum tempo denunciei a minha revolta, gritei liberdade...mas a realidade à minha volta não se alterou."

"Não devo nada a ninguém, lamento apenas que não tenham entendido o abismo em que mergulhei.
Questiono-me sobre se vou ser amado por um dia que seja, se alguém sentirá a minha falta."

"Alguém me pode explicar o fim? Alguém sobrevive à própria morte? Alguém voou até ao infinito? Quero conhecer tudo."

"Não sou ingrato, por isso não quero abandonar de repente quem ainda me abraça, nem sou capaz de submeter alguém a um hipotético caos."

"O meu grito por liberdade não tocou ninguém por dentro."

"Estou demasiado cego e mudo para morrer, demasiado morto para enfrentar a morte. Sou eu a dor, a causa da existência, o ruído do coração a perder-se no meu peito. Mesmo que não possa sair desta imensidão, a memória não se há-de apagar. Morto já devo estar, porque não consigo fazer com que acreditem que escolhi o meu trilho final.
Violento é o meu acordar."

"Talvez uma simples promessa de alguém me convença a ficar aqui. Se a escutar em algum momento, tentarei que a noite não me rasgue o coração."

"Deslizas sem admitir que tens asas para voar."

"Sinto o corpo a decair e a alma a rebentar."

"Desejo a mudança, uma ansiada reacção, um rumo que tarda em definir-se, não posso continuar a esconder o que me rodeia com suspiros incompreensíveis para os outros."

"Sabes bem que dei todo o meu ser, dei tudo de mim, fiz o impossível, que era acreditar no possível, poder amar-te para sempre com todas as minhas forças, esperar um novo dia com a certeza de te encontrar. O silêncio, contudo, tomou conta de mim."

"Como esquecer a promessa desfeita, a mentira, a injúria, a traição, como não lembrar a construção de um amor intenso e partilhado, feito de inquietações e promessas renovadas?"

"Tenho a certeza de que posso desenhar a minha salvação, mas morro em cada vez que acordo."

"Estou só."

"Agora que não te vejo, olho para dentro de mim e é como se encontrasse cicatrizes no nosso amor, pedaços de mim e de ti, dantes ligados, agora sem rumo no meu coração."

"Sinto no peito a dor de um enorme esforço para viver. Vou a caminho de ti e não sei onde estás, procuro-te em cada esquina."

"Vou a caminho de uma solidão sem regresso, onde quer que estejas, ouve o meu grito, escuta a minha voz por um instante."

"Se conseguir adormecer quero-te a meu lado, apesar do que me fizeste sofrer. Perdoo-te, mas não te quero esquecer."

"Sinto-me agora diferente. É como se a doçura que captei em ti, se transformasse num veneno que mata lentamente. Oiço chamar ao longe. Encontro-te e perco-te outra vez. Num ano aconteceu tanta coisa que não me reconheço quando me olho ao espelho, a procurar uma calma que não chega. Em sonhos procuro-te de novo, ao ver-te não te vejo nem te alcanço. Acordo exausta e sozinha, viro-me na cama à procura de um momento de paz."

"O tempo à volta é um fio de dor que procuro atravessar sem olhar para trás."

"Afinal quem sou?"

"Como explicar que queria ser dona do meu destino, sentir-me alguém, poder errar e corrigir, viver?"

"Nesse amanhecer perdi-te e ainda não te encontrei de novo, foi como se uma porta de ferro se tivesse fechado entre nós."

"É mesmo tarde para nos amarmos de novo?"

"Não tenho ninguém a quem anunciar que não durmo."

"Vivo à sombra das sombras, qual a imagem de mim própria?"

"Deixa-me, no entanto, viver na esperança de poder continuar a amar-te, na ilusão de que um dia ouvirás ou lerás o que escrevi. Por agora, é como se me desses um pequeno ribeiro e eu quisesse o mar, como se pretendesse todas as flores do mundo e me entregasses um pedaço de erva."

"A verdadeira loucura é a da dor que não se vê."

"Ando agora à procura de um sol que nunca nascerá, nomes vazios preenchem as minhas memórias."

"Sinto que hoje vivo fechado à volta do medo, rodeado por sombras que não passam."

"Só quem todos os dias vai morrer pode pensar assim."

"Em que momento nos zangámos por dentro?"

"Agora é demasiado tarde para falarmos."

"Não achas que merecemos outra oportunidade?"

"Tudo em mim é dúvida e morte."

"Pergunto a Deus, a um Deus qualquer, se aquela alegria suprema não poderia durar para sempre, porque razão ma deu a conhecer?"

"Alguém se deteve, um instante que fosse, no modo como me poderia sentir? Alguém se interrogou se não seria bom uma conversa comigo pela noite dentro?"

"Necessito de alguém que me ame sem condições, um ombro seguro onde possa encostar a minha cabeça louca e perdida, um colo para me sentar a contar os meus sonhos, uma mão que me ampare e cure as feridas."

"Em que momento perdi a felicidade da minha infância?"

"Estou triste mas mais livre."

"Faço desaparecer o passado da minha cabeça (basta esquecer que te conheço)."

"Basta esquecer que te conheço, não me lembrar de nada que me faça sofrer, perder a memória."

"Estavas perto e longe ao mesmo tempo, num dia quase prometias a lua, no outro tinhas pressa."

"Precisas de ter relações sexuais e não ralações sexuais."

"Quero perdoar e não esquecer de tudo o que não me deste, de tudo o que em ti ainda amo ficou apenas a cor dos teus olhos."

"Nunca mais te quero ver, desaparece, não me olhes."

"Em que momento deixámos de nos olhar? Em que instante permitimos que crescesse este muro que nos separa?"

"Escapas-me.. a pouco e pouco perdi-te."

"Custa-me tanto ver-te desiludido! Só tenho uma desculpa, é a de que nunca falaste comigo sobre a tua ilusão."

"Ter-te perdido será real, se te tenho sempre a meu lado, embora não te possa tocar?"

"Quero estar comigo mas sem me afastar do mundo."

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