terça-feira, 9 de setembro de 2014

José Luís Peixoto - A criança em ruínas

Na minha opinião não dá para dizer se um livro de poemas é bom ou mau, são os sentimentos de alguém e por isso não acho possível qualificá-los (?).
Dito isto tenho a dizer que gostei de alguns poemas e me baralhei com a falta de pontuação em/de outros...
Mas tenho-vos a dizer que o o nome do livro é "adequadissimo", não sei se os poemas são biográficos mas a serem, o autor só podia estar em ruínas quando escreveu o livro, os poemas são tristes e "depressivos", aquele tipo de "depressivo" que se entranha em nós se estivermos tristes e nos faz identificar completamente nos textos.
Acho preferível ler quando se está feliz para não piorar o estado de espírito.


"Estou sozinho de olhos abertos para a escuridão. Estou sozinho.
Estou sozinho e nunca aprendi a estar sozinho. Estou sozinho.
Sinto falta de palavras, estou sozinho. Estou sozinho.
Sinto falta de uns olhos onde possa imaginar. Estou sozinho.
Sinto falta de mim em mim. Estou sozinho. Estou sozinho. Estou sozinho."

"Entre mim e o meu silêncio há gritos de cores estrondosas."

"A minha dor é esta Primavera que nasce e me mostra que o Inverno se instalou definitivamente dentro de mim."

"O amor é saber que existe uma parte de nós que deixou de nos pertencer."

"mas não vou mentir. Estou cansado de mentir.
a minha vida também és tu."

"Não és quase nada, mas não quero e não vou fingir que nunca exististe."

"Às vezes ainda te espero como te esperava."

"Há muito tempo que te espero. Há muito tempo que não vens."

"Todo o amor do mundo não foi suficiente porque o amor não serve de nada. Ficaram só
os papéis e a tristeza, ficou só a amargura e a cinza dos cigarros e da morte.
Os domingos e as noites que passámos a fazer planos não foram suficientes e foram
demasiados porque hoje são como sangue no teu rosto, são como lágrimas,
Sei que nos amámos muito e um dia, quando já não te encontrar em casa instante, em casa hora, não irei negar isso. Não irei negar nunca que te amei. Nem mesmo quando estiver deitado,
nu, sobre os lençóis de outra e ela me obrigar a dizer que a amo antes de a foder"

"Esse filho só de sangue que te escorre pelas pernas. Sou eu. Podiamos ter-lhe ensinado as palavras, mas o seu nome é agora de sangue. Podíamos ter fechado a sua mão pequena dentro da nossa, mas a sua mão é agora de sangue. Esse filho só de sangue que te escorre pelas pernas e morre sou eu, o meu sangue e a minha memória."

"Fingir que está tudo bem: ter de sorrir: um oceano que nos queima, um incêndio que nos afoga."

"Vamos separar-nos, nada nunca mais me trará
os teus olhos ou os teus dedos ou tantas coisas
que eram palavras, nada, nunca mais, manhã após
manhã, te mostrará o meu rosto a acordar. nem as
estrelas, nem a cama antes de adormecer. nada.
Vamos separar-nos, e nada nunca mais nos poderá
unir, nem mesmo o tempo. nem mesmo a morte."


"não. ninguém irá saber o que aconteceu.
Estou muito cansado.
Apetece-me dormir até morrer."

Sem comentários: